DISPONIBILIZO AQUI PARA TODOS, PARTE DO MEU TRABALHO DE CONCLUSAO DE CURSO DA FACULDADE DE MODA, SOBRE BOLSAS PARA BEBÊS.
NESSA PARTE, UMA VISAO SOBRE O CONSUMO DE BOLSAS E SUA EVOLUÇÃO HISTÓRICA.
AUTORA: SARA CARDOSO DOMINGUEZ PARENTE- BACHAREL EM MODA
DEZEMBRO DE 2007
2.4 BOLSAS – UMA VISÃO SOBRE O CONSUMO
Há muito tempo a bolsa, um acessório de moda, deixou de ser apenas um artigo para carregar objetos. Carrega antes, toda uma carga de significados, status e filosofia de vida.
É a síntese do estilo feminino e do humor de cada dia.
Para muitas mulheres, a bolsa é um estilo de vida, e não somente um acessório de moda.
Pesquisa realizada em agosto de 2007, pelo Lakeside Shopping Centre e publicada no The Daily Mail, com 1500 britânicas, indica que essas mulheres, na casa dos 30 anos, possuem em média 21 bolsas, compram uma bolsa nova a cada três meses, e até o final de sua vida, tendem a acumular 111 bolsas. Das mulheres entrevistadas, 5% delas disseram possuir, no momento, mais de 100 bolsas, e admitiram ter um certo peso na consciência por gastarem tanto com bolsas.
A mesma pesquisa indica ainda que algumas bolsas sejam passadas de geração para geração, como forma de herança, algumas entrevistadas disseram possuir bolsas de mais de 50 anos. Prova da paixão que as mulheres têm para com as bolsas.
A maioria revelou trocar de bolsa constantemente, tanto para fazer melhores combinações com seu look, quanto para se sentirem melhor, dependendo do seu humor.
Quando questionadas sobre o porquê de possuírem tantas bolsas, 7 em cada 10 responderam que é pelo fato de precisarem que a bolsa combine com a roupa que estão usando. Uma em cada 5 responderam que acumulam tantas bolsas porque não conseguem se desfazer das antigas, por carregarem valores sentimentais.
Quando perguntadas sobre o conteúdo de suas bolsas, afirmaram carregar consigo itens mais comuns como maquiagem, telefones celulares, carteiras e chaves. Algumas disseram levar remédios, vitaminas, fio dental, repelente para insetos e até caixa com kit de primeiro socorros.
Artigo publicado pela Mintel International Group Ltd, sobre o volume de bolsas compradas pelas mulheres norte americanas, sugere que a obsessão pela compra desses acessórios começa desde cedo, com jovens adolescentes.
O crescente interesse por bolsas com design refinado, na última década, a chamada revolução do design, fez com que as mulheres tomassem cada vez mais afinidade com esses produtos, que se transformaram numa potência de mercado. O fato das bolsas terem o poder de transformar o visual de uma mulher, melhorando sua auto-imagem, tem ajudado a aumentar o valor agregado dessas peças.
De acordo com Critchell (2007), na moda são as pequenas coisas que significam muito, um pequeno objeto como a bolsa pode carregar muitas histórias sobre a vida, poder e religiosidade.
O que uma mulher põe na sua bolsa é muito importante para ela, e faz com que se torne um objeto completamente pessoal, porque contém um segredo, e esse segredo dá à mulher sensação de poder. Tradicionalmente, para uma mulher, a bolsa leva os artefatos de que ela fará uso durante o dia, mas leva também sua pequena fábrica de beleza, que é muito importante na identidade de cada mulher.
Segundo a autora mencionada anteriormente, em algumas tribos africanas, acreditava-se que a bolsa da feiticeira continha poderes sobrenaturais que permitiam que ela entrasse em contato com as forças superiores, e nenhum homem era capaz de abri-la, porque temia.
O interior da bolsa e considerado pessoal e íntimo, porém seu exterior pode revelar muito sobre a personalidade de sua usuária.
Na Nova Guiné, tanto homens quanto mulheres costumavam carregar grandes bolsas, chamadas bilum. Normalmente eram decoradas com penas, conchas e outros ornamentos. Como essas pessoas não viviam próximas aos oceanos, quanto mais conchas adquiriam, mais seu status se elevava. Significava que tinham relações com pessoas próximas ao mar e grande relacionamento social.
Apesar de todos os mitos em torno das bolsas, na opinião de Juliana Berwig, em artigo para a Revista Lançamentos, (2006, p.23), as bolsas carregam a vida das pessoas, portanto é importante estudar sua evolução, da antiguidade até tornar-se objeto de desejo. Como explica a autora, a palavra bolsa deriva do latim bursa.
Um artigo do The New York Times, de 1945, escrito por Anita Daniel, nos conta sobre o uso e consumo de bolsas naquele período:
Uma mulher sem sua bolsa sente-se tão perdida quanto um extraviado no deserto. E ela quer que seja grande. Se ela não puder comprá-la em couro, comprará em tecido, pêlo ou até plástico. A bolsa é a base móvel de seus suprimentos, pronta para atender suas necessidades. Essas necessidades podem escapar ao poder de imaginação de qualquer homem. A bolsa de uma mulher é um calabouço misterioso. É a chave para sua verdadeira personalidade, é a resposta prosaica para muitas concepções poéticas. Um mágico nunca quer explicar seus truques. Há uma aura de tabu ao redor de uma bolsa fechada.
Toda mulher lança um olhar inquieto se alguém ousar olhar de relance dentro de sua privacidade sagrada. Um homem decente deve sempre manter-se distante quando sua companhia abre a bolsa. (...) A típica bolsa, da típica mulher, contém um certo número de coisas com seu toque individual. É esse toque individual que preenche a bolsa. Alguns itens podem sem dúvida rolar para fora no momento em que ela abre a bolsa. Toda bolsa de mulher é um departamento perdido e encontrado ao mesmo tempo. É estranho, mas é verdade que alguns itens desaparecem lá dentro, como mágica. Eles finalmente aparecem na superfície, depois de três ou quatro investigações (...). Todo motorista de ônibus está fadado a ter uma dama bloqueando a passagem enquanto procura por uma moeda nas profundezas de sua bolsa. E todo homem sabe do drama de dois minutos sempre repetido: “Ó céus, eu devo ter perdido meu relógio! (chaves, cartas etc etc). Mas geralmente possui um final feliz. Nada dá mais satisfação a um homem do que passar por tal experiência. Todo o mito de superioridade sobre os homens é criado sobre o fato de que eles não carregam bolsas, mantém as mulheres em eterna dependência comprando-lhes lindas bolsas.
(...) Alguns psicólogos acreditam que a maneira como as mulheres carregam suas bolsas tem características próprias. A “bolsologia” é quase uma ciência.É o tipo de alça, alças de ombro e mulheres que carregam suas bolsas presas em baixo do braço. Do ponto de vista dos psicólogos, o modo como uma mulher carrega sua bolsa demonstra toda uma escala de características, como generosidade ou extrema cautela. Determinado analista alerta os homens sobre as mulheres que levas as alças das bolsas enroladas no punho e as mãos firmes sobre a abertura. (...).
(tradução nossa)
As bolsas são consideradas símbolos de status, hoje quem possui uma bolsa de griffe, com logos estampados e outros símbolos de luxo, por exemplo, como pele de animais, é bem visto, tanto quanto os antigos africanos. Recentemente, uma bolsa Hermes, de pele de crocodilo com incrustações de diamante foi vendida a U$64, 800.
A bolsa é hoje companheira inseparável da mulher, indispensável para compor um look e útil no dia a dia. Uma perfeita representante do universo de sua dona, que confere atitude ao visual que ela deseja.
2.5 HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DAS BOLSAS
Machado (2006), explica que não é fácil encontrar referências históricas sobre como seriam as primeiras bolsas, porém, pinturas rupestres sugerem imagens femininas com o que seriam bolsas penduradas nos braços.
Imagina-se que os povos nômades, que utilizavam as peles dos animais para vestir-se, podem ter desenvolvido espécies de bolsas para carregar alimentos coletados na natureza.
Não é possível dizer exatamente quando surgiu a bolsa, mas alguns registros históricos nos dão a idéia de que seja tão antiga quanto à própria civilização humana.
Uma das primeiras citações sobre a bolsa na história, encontra-se na bíblia, no livro de Isaías, capítulo 3:16, escrito entre os anos de 750 a.C:
Naquele dia tirará o Senhor os seus enfeites: os anéis dos artelhos, as toucas, os colares em forma de meia-lua, os brincos, os braceletes, os vestidos, os diademas, as cadeias dos artelhos, os cintos, os amuletos, as caixinhas de perfumes, os mantos, os xales, as bolsas, os espelhos as capinhas de linho e as tiaras. (p.943)
Uma bolsa é na sua essência um saco, que vem sendo usados desde os tempos mais remotos, por ambos os sexos. É possível encontrar na história da humanidade muitos exemplos e figuras do que seriam os precursores das bolsas, como imagens de camponeses com sacos de sementes.
As bolsas são essenciais na história da indumentária, desde o momento em que as pessoas adquiriram algo valioso para carregar junto de si.
Nas pirâmides egípcias há desenhos que mostram pessoas carregando pequenos sacos presos à cintura, amarrados com cordões.
Como afirmado por Critchell (2007), sacerdotes africanos carregavam bolsas bordadas, e uma pintura datada de 480 a.C que atualmente pertence ao Ashmolean Museu, em Oxford, mostra um garoto segurando uma bolsinha com espécies de ossos, considerados sinal de sedução.
Figura 16 – Bolsa do século V, levada amarrada a um galho ou bastão. Servia para carregar alimentos
Fonte: http://www.sinacouro.org.br/bolsa
Figura 17 – Bolsa para espada, pertencia ao Rei Charles O Grande, França, Século VIII
Fonte: Fashion Accessories – The Pepin Press (2006, p.286)
De acordo com Levins (2005), por volta do ano 1300, o poeta inglês Geoffrey Chaucer, na obra The Miller's Tale, descrevendo a história de amor entre um estudante e a esposa de um carpinteiro: “No seu cinto estava pendurada uma bolsa de couro ornada com borlas verdes e ornada com contas italianas.”
O alforje era um tipo de bolsa bastante utilizada na Idade Antiga, principalmente por homens, e podia ser utilizado na cintura ou na cela dos animais.
Até o fim da Idade Média, as bolsas femininas e masculinas diferenciavam-se pelo tamanho e ornamentos. As masculinas geralmente eram maiores e feitas de couro. Existiam também as pochetes, pequenas e chatas, e os sacos que eram levados pendurados até os joelhos.
A bolsa vem sendo usada desde a Idade Média, tanto por homens quanto por mulheres, tanto que, no século XVI, a grande procura por bolsas culminou no surgimento de sociedades especializadas na fabricação das mesmas, por toda a Europa. No final do século XVIII, tornou-se peça indispensável, para livrar as mulheres do peso que levavam em seus bolsos (AGUIAR, 2006).
Geralmente as bolsas eram feitas do mesmo tecido do vestido e levadas na mão. Bolsas para levar um conteúdo especial como livros de oração, ficaram conhecidas como “bolsas relicário”.
No segundo XV, as bolsas ainda eram usadas penduradas nos cintos. A versão feminina desse objeto chamava-se escarelle, e a versão masculina era conhecida como estilo à bolso ou à esmoleiro, no formato trapezoidal ou quadrada.
Devido à prática de dar esmolas, surge a bolsa destinada a carregar moedas para esse fim, chamada de Almoniere, confeccionada em linho, seda, veludo ou couro, foi bastante usada no período das Cruzadas e também no Período Gótico e no Renacentismo. Era amarrada à cintura.
Figura 18 – Bolsa Almoniere, século XV
Fonte: http://www.sinacouro.org.br/bolsa
De acordo com Critchell (2007), no século XVI, bolsas eram tradicionais presentes de casamento, e normalmente vinham muito bordadas, com ilustrações de histórias de amor.
No século XVI, as bolsas tornam-se mais práticas, com o uso de materiais como o couro. Durante esse período, bolsas de pano, usadas na diagonal ao longo do corpo, eram bastante utilizadas pelos viajantes. Já no século XVII, cresce a variedade de modelos de bolsas tanto para homens quanto para mulheres, e essas adquirem formas mais complexas.
Figura 19 – Bolsa alemã, ano 1586
Fonte: http://www.sinacouro.org.br/bolsa
Figura 20 – Bolsas femininas, França, século XVI
Fonte: Fashion Accessories – The Pepin Press (2006, p.289)
As bolsas bordadas adquiriram tamanho valor que, no início do século XIX, os moldes usados para confeccioná-las eram guardados com esmerado cuidado pelas famílias e passados de geração em geração como parte da herança. De acordo com o site acima mencionado, no início do século XIX, as bolsas o bordado das bolsas desse período era feito com contas minúsculas, e o trabalho era tão esmerado que era possível contar até 1000 contas por polegada quadrada. Esse tipo de bordado produzia um efeito de tapeçaria na peça.
Saber bordar era uma habilidade essencial para toda mulher que quisesse se casar, e eram ensinadas desde pequenas. Hábito que permanece ainda hoje, em algumas regiões.
Figura 21 – Bolsa bordada do início do século XIX
Fonte: http://historiccamdencounty.com/ccnews97.shtml
De acordo com Levins (2005), essas bolsinhas, chamadas reticules, eram também chamadas “indispensables”, por causa da popularidade que alcançaram. Tornou-se uma peça indispensável para a mulher desse período.
Entre 1820 e 1830, as bolsas bordadas passaram a ser sustentadas por molduras de metal, vindas da França e da Áustria, feitas geralmente de zinco, algumas pintadas em dourada. Havia também correntes atadas a essas molduras. Já no século seguinte essas molduras, cada vez mais ornamentadas, eram feitas muitas vezes de ouro puro, prata ou níquel. Essas molduras com esculturas intrincadas começam a aparecer em 1800 e tornam-se marca de elegância no período Vitoriano.
Figura 22 – Bolsa bordada com rica moldura. Período Vitoriano
Fonte: http://historiccamdencounty.com/ccnews97.shtml
Figura 23 – Bolsas chinesas usadas com um cinto, presas à cintura, 1840
Fonte: Fashion Accessories – The Pepin Press (2006, p.288)
No início do século XX, algumas empresas como a americana McCall's, vendiam moldes de bolsas, permitindo que as mulheres as confeccionassem em casa. Junto com os moldes havia um transfer e explicações com passo a passo sobre como fazer os bordados.
Hoje, as bolsas bordadas continuam em alta, e estilistas como Prada e Badgley Mischka, lançam mão de bordados em suas peças, para lhes agregar valor.
De acordo com documentário exibido pelo canal GNT, escrito e dirigido por Marie Annick Le Guern e Annie France Mistral (2001), houve uma época em que era considerado elegante uma mulher carregar o mínimo possível consigo.
É a partir do século XIX que as bolsas começam a ganhar espaço e se destacar como parte da indumentária da vida citadina. Havia preocupação de combinar a bolsa com o vestido e os sapatos. Com o passar do tempo esse acessório passa também a refletir as mudanças da moda (BERWIG, 2006).
A partir do século XIX que as bolsas se separam das roupas, e ganham o nome de reticule. Antes de usar bolsas, as mulheres carregavam o que precisavam, como chaves, lenços ou moedas, em bolsos amarrados na cintura.
Esses acessórios, que podem ser considerados os precursores da bolsa, estiveram em alta por todo o século XVIII, e foram sumindo com a chegada do século XIX. Ainda assim, mulheres de áreas rurais ou as que trabalhavam fora continuaram a fazer uso desses bolsos.
Figura 24 – Bolsos
Fonte: http://www.fashionmuseum.co.uk
Os bolsos poderiam ser usados sozinhos ou em pares. Alguns eram bastante decorados, com laços e bordados, outros mais simples.
Os bolsos foram usados do século XVII até o final do século XIX, e toda mulher deveria ter pelo menos um par destes, que funcionavam como bolsas. Já os homens não levavam esses bolsos consigo por já possuírem bolsos internos, embutidos em suas casacas.
As mulheres levavam seus bolsos amarrados à cintura, embaixo das saias. Aberturas estratégicas nas vestimentas permitiam o acesso a esses bolsos, como mostra a figura a seguir:
Figura 25 – Diagrama apresentando os acessos aos bolsos. Ano 1760
Fonte: http://www.vam.ac.uk
Numa época em que as pessoas dividam os espaços, os bolsos eram praticamente os únicos lugares onde se tinha privacidade e segurança para guardar objetos de valor, sejam eles sentimentais ou financeiros.
O conteúdo mais comum desses bolsos eram moedas, chaves, relógios, jóias e até mesmo objetos de uso diário como tesouras, facas, almofadas para alfinetes e diários pessoais. Alguns bolsos carregavam também objetos de higiene e vaidade como pentes, vidros de perfume e pequenos espelhos. Em algumas obras, como a de James Henry Leigh Hunt, de 1812, o conteúdo desses bolsos é descrito, e aparecem até biscoitos, bolos, bombons e outros tipos de alimentos.
Esses bolsos eram feitos à mão, muitas vezes para combinar com o tecido do vestido. Era comum também aproveitar o tecido de roupas velhas para confeccioná-los. Quem não soubesse fazer poderia comprá-los prontos.
Já naquela época aparecem relatos de ladrões de bolsos e carteiras masculinas. Cortavam os cordões dos bolsos das mulheres e o roubavam. Havia várias técnicas para roubá-los, principalmente quando a pessoa adormecia e colocava o bolso embaixo do travesseiro.
Os bolsos tiveram importante papel na indumentária feminina do século XVIII. Muitas mulheres o descreviam em testamentos e os deixavam como parte de sua herança para seus herdeiros.
Figura 26 – Bolso e carteira, ano 1700
Fonte: http://www.sinacouro.org.br/bolsa
Por volta de 1790, a moda feminina mudou drasticamente, já não se usavam os volumosos vestidos, a linha da cintura subiu para o busto, na chamada Linha Império, então surgiu a dúvida de onde amarrar os bolsos. Amarrá-los iria atrapalhar a linha do vestido. Como solução para isso, as mulheres passam a usar os bolsos à parte dos vestidos, e surgem as chamadas reticules, bolsas extremamente pequenas e muito decoradas. Eram também chamadas jocosamente de “ridicule”, pelos homens. Com o passar do tempo, o termo francês “ridicules” foi substituído por “retícule”, termo este que foi usado tanto na França como na Inglaterra a partir de 1912 para designar as bolsas da época.”
As bolsas surgem graças aos franceses, porque foi depois da Revolução Francesa que a moda, agora muito delicada e quase transparente obrigou as mulheres a tirar os bolsos debaixo de suas roupas.
Nesse período, as mulheres deveriam ter uma bolsa para cada ocasião, e as revistas de moda da época esforçavam-se por ditar regras do que era certo e errado.
As pequenas reticules levavam em seu interior: rouge, pó de arroz, leques e cartões de visita.
Figura 27 – Reticule
Fonte: http://www.vam.ac.uk
Figura 28 – Reticules, Reino Unido, 1870
Fonte: Fashion Accessories – The Pepin Press (2006, p.290)
Figura 29 – Reticules, Reino Unido, 1870
Fonte: Fashion Accessories – The Pepin Press (2006, p.291)
Mas o uso de bolso não foi totalmente abandonado. Uma publicação de 1838, mostra inúmeros moldes de bolsos para serem confeccionados em casa, como mostra a figura abaixo:
Figura 30 – Moldes para confecção de bolsos, 1838
Fonte: http://www.vam.ac.uk
Os bolsos continuaram ainda como itens indispensáveis para meninas, mulheres que trabalhavam e senhoras de idade.
Por volta de 1880, os bolsos utilizados por baixo das roupas ressurgem, devido à sua praticidade e segurança, para carregar dinheiro em viagens, por exemplo. Ainda hoje vemos remanescentes desses bolsos, nos envelopes usados por baixo da roupa, para viagens.
Figura 31 – Pequeno bolso feito de sementes de girassol, França, 1880
Fonte: Fashion Accessories – The Pepin Press (2006, p.297)
É somente no século XIX que surge o termo em inglês, handbag, para designar bolsa de mão, e referia-se originalmente à bagagem de mão carregada por homens, que serviu de inspiração para produção de novas bolsas.
Na primeira metade do século XIX que surgem as primeiras bolsas de viagem, eram miniaturas das malas de viagem e vinham com fechadura, chave e local especial para guardar o bilhete de passagem.
Figura 32 – Bolsa para viagem Alemanha 1860
Fonte: http://www.sinacouro.org.br/bolsa
Por volta de 1820, surgem as primeiras bolsas fabricadas com malha de metal. Eram feitas por ourives e emolduradas com pedras preciosas. A primeira empresa a lançar tal produto foi a Whiting and Davis Company, da Pensilvânia. Durante 100 anos essa empresa lançou bolsas excepcionais utilizando-se dessa técnica.
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Figura 33 – Bolsa de malha de metal da Whiting and Davis Company. Ano 1920
Fonte: http://www.sinacouro.org.br/bolsa
Figura 34 - Bolsas de malha de metal, Reino Unido 1920
Fonte: Fashion Accessories – The Pepin Press (2006, p.294)
Na segunda metade do século XIX, minúsculas bolsinhas, em formato de concha, eram muito apreciadas como souvenirs, vinha com inscrições sentimentais e servia para dar de presente.
No final do século XIX, tornou-se popular o uso de bolsas com inspiração medieval, pequenas e delicadas, conhecidas como Chatelaines, que causaram grande impacto na moda nesse período. Traziam a vantagem de deixar as mãos das mulheres livres, visto que deveriam ser penduradas na cintura, por correntes. Essas correntes produziam barulho que chamavam atenção por onde a mulher passava. Foi bastante popular na Inglaterra. Esses objetos tornaram-se acessório de ostentação entre as mulheres desse período.
Houve um período, entre 1840 e 1870 em que as reticules tornaram-se antiquadas.
Figura 35 – Mulher com chatelaine pendurada na cintura
Fonte: http://www.sinacouro.org.br/bolsa
O “bolso” que agora estava para fora das roupas, tornou-se o símbolo da mulher independente. Significava que ela poderia ir onde quisesse, sem estar na presença de um homem, porque carregava consigo todas as suas posses.
Segundo Berwig (2006, p.23), “é no século XX que a bolsa entra de vez na indústria da moda”.
Surge num momento em que a mulher já estava livre do espartilho e tinha liberdade para carregar um acessório como este nas mãos.
O século XX, com seus avanços tecnológicos, traz uma infinidade de novos materiais e possibilidades para as bolsas. Eram produzidas agora bolsas com material à prova de água, perfeita para os dias chuvosos, bolsas resistentes para a praia, delicadas para eventos noturnos entre muitas outras.
No século XX a moda deixa de ser encarada como algo fútil e passa a ser entendida como uma ciência social.
A Europa, considerada o centro da moda, perde esse posto após a guerra. Com maior trânsito de pessoas, bolsas de todas as partes do mundo começam a ser comercializadas. Em 1900, começam a surgir também grandes bolsas de couro destinadas às compras.
De acordo com documentário do GNT, no início desse período, as mulheres portavam bolsas minúsculas, em forma de rede, e podiam ser levadas nas mãos ou presas na cintura como um cinto. As saias da época tinham bolsos onde era carregado apenas o essencial, dispensando a necessidade de uma bolsa.
Carregar bolsas minúsculas indicava que a mulher tinha empregados, qualquer objeto maior seria carregado por uma empregada ou carregador.
Geralmente a bolsa era somente um acessório bonito, atraindo a atenção para as mãos e os pulsos delicados, convidando a todos a imaginar o seu conteúdo, sem nenhuma função prática.
Durante o período da Belle Époque, caracterizado pelo luxo e ostentação da classe alta, costureiros famosos lançaram uma moda clássica, sinuosa e pesada para as mulheres. Porém figuras como Poiret, buscavam a simplicidade, inspirados nos figurinos greco-romanos da antiguidade.
As bolsas, agora já indispensáveis, eram normalmente retangulares e pequenas, feitas em tecido bordado ou malha metálica, sustentada por correntes ou cordões.
Durante a Primeira Guerra Mundial, os soldados carregavam mochilas, as precursoras das atuais. Essas possuíam muitos bolsos, permitindo que o soldado carregasse tudo o que precisasse, nas costas. Porém, a mochila vazia pesava 3 quilos.
A emancipação feminina foi impulsionada pela guerra, a mulher não estava mais limitada a um estilo de vida, a etiqueta feminina foi revista, sofrendo alterações. Por exemplo, houve uma época em que passar pó de arroz em público era considerado falta de educação, mas na década de 20 essa idéia foi abandonada.
A bolsa, na época com bastante brilho, servia principalmente para guardar maquiagem como batom e esponja para pó de arroz, além de indispensáveis balas de menta.
Não havia lugar para bolsos vestidos que estavam em voga na época, mais curtos, no estilo melindrosa.
Esta não queria depender de um homem para carregar seus objetos pessoais. Então a bolsa já não é mais um simples enfeite, passa a ser uma necessidade.
Também dentro dos leques feitos de plumas havia espaço para guardar maquiagem. Porém o modelo predileto da época ainda era uma bolsa muito pequena, que consistia num círculo de tecido com cordão para fechamento. Tornou-se popular também por ser fácil de confeccionar em casa.
As versões mais elaboradas possuíam em seu interior um espelho e um fecho metálico, o material preferido era o couro, com enfeites delicados. Muito usado na época era o “fecho da vovó”, uma espécie de armação metálica que facilitava a organização no interior das bolsas, permitindo que a bolsa seja aberta ao máximo, facilitando a visualização do seu conteúdo.
Na década de 20, quando a moda feminina revoluciona-se, as bolsas já não precisavam combinar perfeitamente com os trajes, como era de praxe nos anos anteriores.
Na década de 20, dominava a bolsa carteira, usadas sob o braço. De dia deveriam ser lisas, de couro, para a noite, com bordados e pedrarias.
Já na década de 30, apesar da crise financeira gerada pela Quebra da Bolsa de Nova York, foi um período de muita produção artística e cultural. Passou-se a usar materiais mais baratos, como o plástico, para fabricação de bolsas. As bolsas continuavam pequenas e com fechos de metal.
Perto do final dessa década começaram a ficar um pouco maiores e diversificadas quanto aos materiais, eram usados couros de crocodilo, jacaré, leão marinho entre outros. Devido à grande preocupação com maquiagem e beleza, as bolsas dessa época ganharam compartimentos para maquiagem, com espelho e porta batom.
Figura 36 – Bolsa com pele de crocodilo, ano 1930
Fonte: http://www.sinacouro.org.br/bolsa
Também na década de 30, segundo Machado (2006), fazem sucesso as criações da estilista Elsa Schiaparelli, como a bolsa em formato de concha que tocava música quando se abria e a bolsa com lâmpada no interior. Elsa tinha sempre forte influência das artes em seus trabalhos, e desenvolveu peças para empresas como Whiting and Davis.
Nos anos 40 e 50 surgiram como destaque as bolsas de modelo envelope e baú, em couro bovino, mas também de cobra e crocodilo.
A década de 40 traz austeridade, em virtude da guerra, as bolsas sofreram alterações. A escassez de materiais, como as molduras de metal, couro e espelhos, fez os produtores procurarem outras fontes como plástico e madeira.
Depois da guerra, o desejo era satisfazer as vontades reprimidas durante o período bélico. Devido à escassez de matéria prima, o artesanato desenvolveu-se. O couro era escasso e as bolsas passam a ser confeccionadas com tecido e outros materiais alternativos. Eram também bastante comuns, bolsas do tipo alforje, de tecido. Em 1941, surgem bolsas de madeira, lançadas por Lelong, que ganharam popularidade e invadiram as ruas.
A década de 50 trouxe importantes estilistas como Louis Vuitton e Hermes.
Como exibido no documentário da GNT, com o início da Segunda Guerra Mundial, mais uma vez os soldados tinham que levar grandes cargas sobre as costas, pouco havia mudado. Durante esse período algumas mulheres também foram à guerra, e a maioria teve de ingressar no mercado de trabalho devido à falta de mão de obra masculina. As que iam à guerra levavam consigo uma mistura prática de mala e bolsa.
Nessa época, toda bolsa considerada chique era feita de couro, e com a recuperação da economia e melhoria dos meios de transporte, as pessoas passaram a viajar cada vez mais, e para tanto, foram produzidos para venda conjuntos de malas de viagem, sendo que a peça mais requintada era a valise.
Na década de 50, surgem elaboradas bolsas de festa, as mais utilizadas eram as do tipo carteira, luxuosas e exóticas, criações de estilistas renomados. Chanel foi a precursora do visual coordenado, que dizia ser de bom tom a mulher combinar a roupa, com os sapatos, bijuterias, bolsas e luvas.
A partir da década de 50 os estilistas passam a investir em criações inusitadas para as bolsas, havia bolsas em forma de tatu e telefone.
Depois desse período, Hermes, que era celeiro antes de começar a confeccionar o que viriam a ser as bolsas símbolos de elegância, lança a famosa bolsa Kelly.
A bolsa Kelly, foi criada em 1935 pela Maison Hermes, mas foi somente em 1955 que ganhou esse nome, em homenagem a princesa Grace de Mônaco.
O uso da bolsa Kelly conferia à mulher elevado status social.
Desde a década de 20 as bolsas vinham se tornando maiores e mais acessíveis, e os modelos exóticos tornavam-se cada vez mais populares, porém os clássicos mantinham-se nas primeiras posições.
A moda da década de 50 era conservadora e elegante, porém as bolsas eram mais descontraídas, como as criações do estilista Jacques Fath. O couro havia deixado de ser o material padrão, passou-se a utilizar a ráfia, cujos mestres eram os italianos.
A bolsa é o acessório mais versátil da moda, existindo em todo tipo de material, cor e tamanho.
Na década de 50, devido à explosão na taxas de natalidade do pós-guerra, as mulheres tornam-se mais caseiras. A mulher adota a linha casual, e televisão invade os lares e passa a ditar regras. Bolsas em formato de caixa, as bolsas box, tornaram-se comuns, bem como a bolsa bracelete. O bambu começa a ser usado para fabricação de alças de bolsas. No Brasil, a moda era copiada da Europa e dos Estados Unidos, e o centro de tudo era o Rio de Janeiro.
Figura 37 – Bolsa fabricada a partir de carcaça de tatu. Ano 1950
Fonte: http://www.sinacouro.org.br/bolsa
A bolsa de couro em matelassê com alças de corrente, um clássico da moda, foi criada por Chanel em 1955. Essa bolsa foi batizada de 2.55, porque foi idealizada em fevereiro de 1955. A inspiração veio das corridas de cavalos (AGUIAR, 2006)
Figura 38 – Bolsa 2.55 Chanel. Um clássico da moda, 1955
Fonte: http://www.sinacouro.org.br/bolsa
Na década de 60 surgem bolsas com inspirações em pilhas de livros e relógios e até bolsas que era uma verdadeira penteadeira quando abertas.
Como se pode notar, já não havia limites no uso de materiais, cor ou tamanho.
Na década de 60, a moda está voltada para os jovens, que adotam aparência mais simples e despojada. No início dessa década ainda eram muito comuns as bolsas carteira, com padronagens e estampas, em couro ou sintético..Bambu e acrílico também eram muito usados.
As bolsas receberam influências de movimentos artísticos como Pop Art, essencialmente ocidental, e Op Art, adquirindo diferentes formatos.
Nessa década vê-se uma retomada das técnicas artesanais, como tricô, crochê e patchwork. Materiais alternativos, como bambu e acrílico passam a ser usadas na confecção das bolsas. As bolsas dessa década receberam também estampas geométricas e influência da Pop Art, e também do movimento hippie, o Flower Power ( BERWIG, 2006).
O movimento Pop Art, inspirava-se em objetos de consumo, símbolos da época.
Contrário à moda hippie dos anos 60, surge o movimento futurista, em virtude das viagens espaciais e de toda ficção científica que agitava a época. Os designers lançavam mão de materiais sintéticos prateados e placas de metal para produzir bolsas e acessórios.
No final da década de 60, as bolsas e suas donas caem nos divãs dos analistas, segundo uma teoria, é possível definir a personalidade de uma pessoa pelo conteúdo e pelo tipo de sua bolsa, sendo possível descobrir se é gananciosa, generosas ou fúteis.
Em 1967, Nina Ricci, cria bolsas inspiradas em alforjes. As bolsas a tiracolo começaram a ser bastante utilizadas pelas aeromoças e popularizaram-se, tornando-se uma peça básica.
Nessa época, o zíper passa a ser amplamente usado no fechamento das bolsas. Também nesse período algumas mulheres passaram a adotar o uso de pastas executivas masculinas, que logo ganharam suas versões femininas.
Na década de 70, houve uma mistura muito grande de estilos, sendo difícil definir uma única moda. Passou-se pelo movimento hippie, new romantic, liberty, entre outros.
Na década de 80, conhecida como “os anos dos contrastes”, trabalha-se com inspirações do passado e idéias nostálgicas. Existem várias vertentes na moda e harmonia entre opostos como feminino x masculino, simples e exagerado. É também a década das tribos urbanas.
As bolsas estilo sacola foram muito usadas, porque eram práticas para as mulheres que estavam no mercado de trabalho. Também essas mulheres começam a adotar o uso de pastas executivas. Porém bolsas e sapatos deveriam estar coordenados. Mochilas de nylon entram em cena devido à febre de freqüentar academias. A pochete, levada na cintura também era bastante utilizada.
A década de 90, sofre influência do estilo minimalista, a simplicidade levada ao extremo.
Para alegrar as coleções minimalistas, estilistas lançaram mão das cores cítricas. As bolsas passam a ter também compartimentos para atender as necessidades da mulher da época, como porta-celulares, porta chaves e outros. As mulheres passam a investir mais em acessórios.
Na opinião de Berwig (2006, p.23 ), “a bolsa consagrou-se como ícone de moda, por conta do surgimento dos conglomerados de luxo, destacando (...) marcas como Channel, (...) Fendi, (...) e Hermès.”
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